Tradução do documento original
TERMOS DE CRESTUMA E COMPRA DE MOINHOS E DOAÇÃO
DE NABULI E PORTAGEM DO RIO DOURO
Não, sofre dúvida e pelo contrário é bem
manifesto e conhecido de muitos, que por ordem de Deus e para remédio da
sua alma, o próprio Rei Ordonho deu ao grande Gomado o episcopado da Sé
de Coimbra, com a sua diocese, como a obtiveram os outros bispos que
antes dele tiveram o episcopado, por muitos anos, até Portugal.
E, depois de algum tempo, foi o bispo à côrte; e, ante o rei, despediu-se
e deixou o grande episcopado para entrar no convento.
E o próprio bispo procurou uma ermida, e a encontrou no
lugar de Crestuma, junto àquela foz em que o rio cai do Douro
(2).
E entrou nela por mão de Arias Abederahemem e de Mauro, confrades, e de
Elvira, abadessa, para ali passar a vida religiosa, e onde repousasse, à
sua vontade, seu corpo, no lugar em que são venerados Santo Estevam, São
Martinho, Santa Marinha, Santa Maria Virgem e São Salvador; e onde, na
mesma ermida, estão sepultados companheiros mártires.
E o mesmo bispo adquiriu o termo da mesma vila
(3) e do próprio mosteiro.
E o encontrou limitado com Lever (4); e
dai pelo monte Felanoso; e daí com Sete Sobreiros; e daí por Seixoalvo
(5); e daí com Paradela (6); e daí pelo
termo de Alheira (7); como está divido com Dom ViIifi.
E daí ao porto de Arnelas (8). E compreendendo a
própria igreja de Arnelas, com uma igreja chamada de Santo André.
E levou o mesmo termo da outra parte do rio Douro e
encontrou o termo pelo monte Zeurário – hoje – Zibreiros
(9).
E daí por Penelas, por aquele monte até à ribeira.
E daí pela fonte Penoso, como limita com Esposade
(10).
E tornando a passar o rio Douro na vila do Paço, abrangeu a própria vila
toda excepto a VII parte, que é de outros herdeiros de Lever; e daí ao
termo de Lever onde primeiro começou.
E a mesmo bispo comprou a azenha de moinhos, na rio Uima, que era de
Fragiaro e de Arias Abrahão, no termo de Lever.
E deu, igualmente, um macho avaliado em cem soldos, com
seu freio e sua albarda e sua sela arintia, no valor de outros cem
soldos
(11).
E estando o bispo no seu convento, veio o Rei (Ordonho)
a Portugal (12), e mandou dizer ao próprio bispo que
viesse ter, com ele, Rei.
E o mesmo bispo não saiu do seu convento, como manda a regra.
E o próprio rei, para lhe fazer mercê, e a rainha, armou navios em
Portugal (Gaia) e, com os seus condes Lucido, Vimarano e Rodrigo Luci,
foram em barcos à ermida do bispo visitar o dito bispo e fazer oração
naquele lugar santo.
E o mesmo rei, a rainha e os condes, para bem das suas almas, fizeram
solenes festas em honra do bispo e de seus frades e sorores.
E permaneceu com sua comitiva no próprio mosteiro.
E naquele dia fez concílio e se informou sobre a vida dos confessores e da
congregação, onde eram servos pacientes no mesmo lugar.
E o mesmo rei, com a sua comitiva, para bem da sua alma,
reuniu em concilio, Mauro, os frades e a abadessa Elvira e decidiram
oferecer-lhes a vila de Fermedo (13) com os seus
antigos limites.
E deu-lhes o mesmo rei e a sua comitiva a navegação e
portagem do rio Douro, no dia de sábado, do porto de qualquer rio e por
todos os seus portos até à Foz do rio Douro, onde entra no mar, quanto o
Senhor der naquele dia para remédio de suas almas e para as de sua
geração. E no mesmo concílio deu Lucido Vimarano Vilas e Igrejas ao
mesmo mosteiro na margem do rio Douro desde o porto da cidade de Anégia
(14) e a igreja de Santa Marinha com todos os seus direitos ou
débitos, onde a rio Tâmega entra no rio Douro.
De Portugal – Gaia – deu-lhe outra igreja na lagoa de Avil, de nome Santa
Cruz, com todos os seus direitos ou débitos perto do mar.
E deu outra igreja na margem do Mondego.
Vila de Portugal, como está dividida, pelos seus antigos
termos, com a Vila de Mafamude e dai, pelo monte, desde o termo de
Coimbrões, até Gaia (15). Aquela foi metade de seus
parentes Fulderon, e Palma.
E a outra metade a comprou por seu preço e suas cartas.
E na Vila de Mexedo (16), a igreja de
S. João com as seus direitos, que os deram Ero Vimariz.
E na ribeira do rio Febros (17), outra
igreja de nome São Martinho de Paradela (18).
E a Vila de Seixo Alvo com todos as seus termos.
E a Vila de Cortegaça toda com seus termos e sua igreja de São Miguel com
todos os seus direitos.
E da Vila Chá de Fermedo toda como está demarcada.
De Branca, outras igrejas denominadas São Pedro de Vila Chã com todos os
seus direitos e aumentos.
E a Vila de Dezanos com os seus termos e sua igreja denominada São Miguel
com seus direitos. E em Riba de Ul a igreja de São Tiago com seus
direitos.
E a Vila de Oliveira, com a igreja de São Miguel com seus direitos e
aumentos.
E na ribeira de Antuã o mosteiro chamado de Santa Marinha pelos seus
antigos termos, como a obteve Dom Salomão.
E na terra de Eceurario a Vila de Ossela com a igreja de São Paio.
E em Calvelo a ração do mestre Egela e do mestre Blatus, quanto lhes
pertence entre seus irmãos, tanto em Calvelo como ainda na parte do
Caima.
E a Vila que chamam Cela Nova como confina com a Vila de Louredo, e Vila
Armentari, e Vila Todo o Mundo.
E da outra parte da ínsua chamada São Tiago sob o monte Codar.
E da outra parte do Caima a Vila de Palaciolo com sua igreja chamada de S.
João de Cepelos, que deu Guitierre Moniz.
E no porto de Ovar as igrejas chamadas de São Donato e São João com todos
os seus direitos e aumentos.
E entre a vila de Palaciolo e Ermogenes a igreja chamada São Mamede com
todos os seus direitos.
E tudo o que acima está taxado e firmemente íntegro o
outorgam, ao Mosteiro de Crestuma (19).
E aquele que pretender infringir o pagará em quádruplo. E esta escritura
tenha plena firmeza, 11 de Junho.
Era de 960.
Nós, acima nomeados, a garantimos com nossas mãos.
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(2) É o
actual rio Uima
(3) Até aos fins
do século XII, a designação de Vila, era dada, indistintamente, tanto a
um simples casal, como a uma pequena povoação.
Também designava uma herdade grande ou pequena. As granjas que
compreendessem terre-nos com casas rústicas com cortes para gados,
também se designavam por vilas.
As quintas ou povoações limitadas a uma propriedade, onde vivessem alguns
casais, eram denominadas por vilares e vilarinhos.
O termo de vila, segundo documentos, que ainda existem, também foi
empregado para designar entre outras, as cidades actuais do Porto,
Coimbra. Bragança. Lamego e Guarda.
A cidade do Porto era indicada como a vila ao bispo, na carta de foral,
dada pelo rei D. Afonso III, à sua Mea Vila de Gaia, quando tornou
independente da suzerania do bispo do Porto, todo o território da actual
Vila Nova de Gaia.
(4). Esta
freguesia, desde sempre pertenceu à Vila da Feira; mas, pelo Decreto 12
457 de 11 de Outubro de 1926, foi anexada ao concelho de Gaia.
(5) É um dos
lugares mais antigos da actual freguesia de Olival, do concelho de Gaia.
(6)
Presentemente é um dos lugares mais populosos da freguesia de Pedroso,
cuja área, nesta época, limitava com Crestuma.
(7) Outro antigo
lugar da freguesia de Pedroso.
(8) Antiga e
populosa povoação que presentemente pertence à freguesia de Olival do
concelho de Gaia.
(9) Zeurario –
Viterbo explica:
«Nas demarcações do grande centro do mosteiro de Crestuma que se estendia
à margem direita e esquerda do rio Douro no ano de 922, se faz menção,
na terra de Sousa do Monte Zeurario, isto é «Monte das vacas.»
(10) Povoação
da freguesia da Foz do Sousa do concelho de Gondomar.
(11) Moeda
antiga, que foi posta em circulação, no tempo dos romanos, em toda a
península Ibérica.
(12) Vila ou
povoação que, naquele tempo existia na actual Vila Nova de Gaia.
(13)
Presentemente é uma freguesia que faz parte do concelho de Arouca: É
povoação antiquíssima, teve foral dado pelo rei D. Afonso UI, e foi
concelho até à data da sua supressão, em 24 de Outubro de 1855.
(14) Anégia,
que aparece em bastantes documentos desde os séculos IX ao XI,
alterou-se, mais tarde, para o nome de Areja, povoação que,
presentemente, faz parte da freguesia da Lomba, do concelho de Gondomar
muito embora esteja situada na margem esquerda do douro, encrava no
distrito de Aveiro. Antes da fundação da nacionalidade portuguesa, foi
tão florescente que, neste documento, vem designada como cidade, porém,
actualmente, é uma simples povoação com cerca de 80 fogos.
(15) O Dr.
João Pedra Ribeiro ao deparar com este trecho, escreveu o seguinte: «Que
já no século V figurava uma povoação com nome de Portugal assaz se
prova, mas fica indefinida a sua situação. Ela ao menos no século X
estava ao sul do Douro, consoante se prova em uma cláusula da amplíssima
feita na Era de 960 – ano de Cristo 922 – peio rei D. Ordonho lI, de
Leão ao bispo de Coimbra, que se retirara para o Mosteiro de Crestuma, e
aonde o mesmo rei, o veio visitar e lhe fez a doação, que está inserida
no Livro Preto da Sé de Coimbra, a fls. 39».
«Entre outros territórios específica Vila de Portugal «quomodo dividit per
suos terminos antiquo, quomodo dividit cum vila de mahamudi. Et ind per
montem a termino de Colimbrianos usque in Gália». Temos, portanto, a
povoação de Portugal, ou Porto no século X, não ao norte, mas ao sul do
rio Douro, confinando pelo nascente com Mafamude, pelo poente com
Coimbrões, sítios hoje bem conhecidos, e, por isso reduzido à Gaia
actual, antiga Cale».
À face deste documento se pode rectificar, o que os nossos escritores e
estrangeiros tenham escrito acerca desta povoação, que deu o seu nome ao
nosso reino. (Dissertações Cronológica... Tomo 4.°, parte 1ª, páginas
2).
(16) É um dos
lugares mais antigos da actual freguesia de Pedroso.
(17) Este
ribeiro banha as freguesias de Pedroso, Vilar de Andorinho e Avintes, e
desagua no rio Douro.
(18) São muito
antigas as povoações de Paradela de Baixo e Paradela de Cima da
freguesia de Pedroso,
(19) É uma das
freguesias mais antigas do actual concelho de Gaia.
Foi cabeça de couto, e após o triunfo dos liberais, foi elevada a
concelho, em 12 de Junho de 1834, vigorando até 19 de Outubro de 1835.
A sua primeira veração foi constituída por José Francisco de Oliveira;
Luís de Sousa, fiscal; Manuel Joaquim de Castro, provedor.
Nesta freguesia há a povoação denominada Burgo, onde, existiu um Crasto.
Deste sítio e do rio Uima, foi organizada o nome de Crestuma actual.
O convento de Crestuma, aonde viveu o bispo D. Gomada, foi anexado, por
carta régia, à mitra do Porto
Nesta freguesia existem bastantes fábricas de Tecidos e de papel, sendo
uma das principais a que foi fundada par Augusto César da Cunha Morais,
que foi vereador da Câmara de Gaia.
Embora existente em terrenos da freguesia de Lever, há outra grande
fábrica de nome Companhia de Fiação de Crestuma, da qual é Director o
Sr. comendador António Pimenta da Fonseca.
Também, nesta freguesia, existem algumas fundições de ferro, importantes,
que foram fundadas por homens que se especializaram na fábrica de
fundição, que a rei D. Miguel I, a quando da luta da Cerca da Parto,
estabeleceu para o fabrico de munições para o seu exército.
Esta fundição visitada pelo rei D. Miguel em 19-12-1832, e foi
estabelecida em uns armazéns que pertenciam à Companhia Geral da
Agricultura das Vinhas da Alta Douro.
Tudo, porém, que esta Companhia possuía na freguesia de Lever, foi
adquirido pela Companhia de Fiação de Crestuma, no ano de 1854.
Revivendo o passado, informamos que na luta do Cero do Porto, foram as
Oficinas de fundição de ferro de Lever, ali sustentadas largo tempo,
pelos provedores da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto
Douro, que, na sua quase totalidade, eram partidários do segundo filho
do rei D. João VI, que, de facto, reinou em Portugal desde Junho de
1828, a 27 de Maio de 1834, data em que abdicou da côroa, vencido pelas
armas de seu irmão D. Pedro, pai da rainha D. Maria II.
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