Na nossa infância não havia
carros caros a não ser nas outras crianças,
brincávamos com canas e galhos
e éramos felizes correndo
entre a relva , rasgando os joelhos
nas quedas e estragando a ganga
com o verde que nunca mais saía.
Não havia dislexias nem disgrafias
nem apoios extras
nem separações de bens, nem comunhões
ou adquiridos e tudo era nosso porque o era.
Na nossa infância só o Sol
e o verde e os pés molhados
nas ribeiras enquanto caçávamos gambúzias
e ríamos depois de
desesperadamente nos livrarmos
de uma sanguessuga agarrada ao corpo.
Hoje é tudo o inverso e
adquirindo ou separando,
tudo tem um fim mais triste
e olho para a nossa infância
pensando, talvez, que já nem sei
se agora não preciso de nada ou
de tudo do que tenho
e se o que tenho sem ti me basta,
só já não rio e desespero quando
ainda tento à rasca livrar-me
de algumas sanguessugas
que persistem em agarrar-se a mim.