A Procissão à Capela de São Marcos * * *
O insigne escritor Almeida -Garrett, no seu livro O Arco de Santana, dá-nos uma fiel descrição do modo como o Cabido da Sé do Porto realizava, no dia de São Marcos - 25 de Abril, a procissão das ladainhas em honra deste grande evangelista.
É justo, pois, que transcrevamos, do mesmo romance, tudo o que mais se relaciona com esta procissão, visto tratar dum facto que, na verdade, vem corroborar, em muito, o já afirmado em documentos, sobre a alta antiguidade de Gaia.
«Ora eu diz Garrett nasci no Porto e criei-me em Gaia.
Fique, porém, certo o leitor amigo e, benévolo, que a verdade chamada histórica, isto é, a dos livros, vai guardada e salva.»
E, assim firmado, conta-nos o grande escritor:
«O nosso bispo e o nosso cabido têm de ir hoje a São Marcos, de além Douro.
«Dali a pouco as portas da catedral estavam abertas, e a procissão saía, gravemente, entoando as ladainhas e preces públic3ls. O bispo, em todo o esplendor da pompa católica, seguia no couce da procissão.
«Tomaram para a Porta do Sol, desceram o íngreme Codeçal abaixo e chegaram à escura margem do rio, cantando e rezando.
«Dia de S. Marcos, do fundador desta nossa igreja portugalense - que foi o santo evangelista - deixai falar de Basílios e Basileus e da sua Sé de Miragaia.
«Miragaia era um triste burgo, quando já Gaia era cidade romana, e nela foi nossa primeira Sé. Por memória disso lá vamos, hoje, além do rio à capela do santo onde essa era.
«E ali incensamos o bom povo da antiga CALE e lhe dizemos: Boa gente! Boa gente!
«Entre as muitas festas processionais da nossa boa Sé - me dizia um beneficiado velho, que andou comigo ao colo, e era a mais santa alma de beneficiado que ainda houve - foi talvez a primeira a de São Marcos Evangelista, que os de Gaia ou CALE pretendiam ser os fundadores da igreja portugalense, em oposição aos de Miragaia, que a queriam fundada por São Basileu, na sua freguesia de São Pedro, extramuros.
«Já na minha infância, porém, e quando o meu velho beneficiado me enriquecia o espírito e a memória com estas interessantes e romanescas arqueologias, já a procissão das ladainhas de São Marcos não passava de São João Novo, e dali de ao pé da ermidinha da Esperança é que os cónegos, incensando para Gaia, cantavam o Boa gente! Boa gente!
«O caso é que a cerimónia ainda se praticava em nossos dias, e que em eras mais remotas a procissão passava, como a descrevi, de além - Douro e ia à própria capelinha do Santo, cujas ruínas ainda, hoje estão a meia-encosta das ribanceiras de Gaia.
«E devia de ser razão bem ponderosa a que obrigava bispos e cónegos, os senhores da terra do Porto, a passar o rio, e a visitar essa gente de Gaia e de Vila Nova.
«Uma flotilha de saveiros com seus toldos embandeirados e ornados de festões de flores, seus convés juncados de espadanas, está prolongada na praia e recebe a procissão a seu bordo.
«As ladainhas não pararam, o canto não cessou: acompanha-o agora o remar certo e compassado dos barqueiros cujas vozes, roucas mas afinadas, se juntavam também ao clamor geral do coro.
«Um sol de Primavera batia a prumo sobre as águas, rochas e verduras. Dum lado e outro do rio a população da cidade e da Vila, prolongada pelos brancos areais, que se espelhavam com o sol, contemplava em religioso silêncio a marítima procissão que, em longa diagonal, ia cruzando o rio quase como se o descesse, pois é considerável a distância que vai donde hoje é a Porta Nobre, em que embarcara, até o desembarcadouro de Gaia, onde foi ter.
«Desembarcando e cantando prosseguiram nas ladainhas e assim foram subindo até o princípio da encosta que leva ao Castelo, e onde a igreja ou ermida do santo era situada.
«Todo o povo da Vila e suas vizinhanças acompanhava, como em triunfo, e recebia, quase como homenagem à sua independência, a visita do senhor bispo e do senhor cabido, tão senhores do outro lado do Douro.
«A clerezia do Porto eram os albam patres.
Gaia afectava as soberbas de alta moenia Romãe.
«O bispo subiu ao trono; à volta dele, em círculo, os cónegos; e logo começou a missa com que se ia concluir a festa e rogações daquele dia.»
Sobre a antiga e já desaparecida fonte de D. Ramiro, conta-nos o mesmo escritor:
«Chegavam ao pé da romanesca fonte de El-rei Ramiro, que, em seu gárrulo correr, vai ainda repetindo o palrear incessante da faladora Peronela, quando ali vinha do Castelo buscar água para a sua ama.
«Passam essa fonte tão celebrada na tradição popular, passam a antiga casa que o povo apelida também de aços de El-Rei Ramiro e que talvez fosse, naquele tempo, a residência dos ciosos reis de Portugal, quando ali vinham, quase ocultamente - aforrados, diria um purista - conspirar com o povo contra os bispos seus senhores.» (102)
Almeida Garrett, conquanto fosse portuense nato, jamais alterou o afirmado em documentos antiquíssimos e, por isso, sempre situou a pré-romana povoação de CALE na margem esquerda do rio Douro, no sítio onde, outrora, foi erguido um Castelo pelos romanos.
Nas proximidades de CALE, ou, talvez, na mesma área desta povoação, existiu, no século X, a Vila de Portugal, que confrontava com Mafamude e Coimbrões, conforme se acha exarado em documentos autênticos.
Tais são as referências que Almeida Garrett nos faz sobre o passado de Gaia, terra onde viveu, na quinta do Castelo, desde 1804 a 1809.
Seu avô materno, Bento de Almeida Leitão, foi o fundador da casa, onde, há cerca de 80 anos, se instalou o colégio religioso do Sardão, de Oliveira do Douro.
A obra do aqueduto, que tantos admiramos, foi mandada realizar por aquele antepassado de tão notável escritor.
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(102) A actual casa pertence ao Sr. Conde de Campo Belo foi edificada pelo seu fundador, no terreno destes antigos paços.
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