Porque é importante o trabalho do Psicólogo e a Terapia Cognitivo- Comportamental ?


 
 

Em Portugal ainda existe uma atitude de alguma "desconfiança" ou "desvalorização" da psicoterapia...

 
 

 

Por Fernando Lima Magalhães

Para tentar ultrapassar uma atitude de alguma "desconfiança" em relação ao papel ou importância do Psicólogo, e da cada vez mais frequente "sobremedicação", vamos tentar explicar porque é importante, e tantas vezes fundamental, a terapia psicológica.

Posso começar com o exemplo da depressão. Existem dois tipos, a depressão endógena que constitui cerca de 10% dos casos e tem origem em disfunções químicas no cérebro ou em factores hereditários (genes), pelo que neste caso, o tratamento privilegiado deverá ser o medicamentoso.

Mas a grande maioria das depressões tem origem em reacções psicológicas a acontecimentos de vida, negativos ou stressantes- é a depressão exógena.   Ou seja, são os eventos negativos que podem desencadear a depressão. Por exemplo, o desemprego, relacionamentos que terminam, sentimentos de perda, rejeição amorosa, divórcio, conflitos, ou frustração em atingir um objectivo pessoal, são factores frequentes que explicam o início de uma depressão.

Mais do que os acontecimentos em si, é a forma como as pessoas interpretam os acontecimentos, que é, em geral, uma leitura ou avaliação negativa de si e dos outros, o que permite manter e desenvolver a depressão. O problema é que estas pessoas passam a distorcer a realidade e a avaliar negativamente, de forma sistemática, as informações do meio. Se nós temos um sentimento de tristeza ou depressão, é porque os nossos pensamentos conduziram a esse sentimento e não tanto devido aos acontecimentos exteriores a nós. É o pensamento que determina a nossa forma de sentir. Por exemplo, a ansiedade está frequentemente associada a pensamentos de perigo ou de que algo de negativo pode vir a acontecer.

Na depressão as pessoas estão convencidas que os seus pensamentos são verdadeiros, válidos e úteis, quando na realidade, eles são na sua maioria interpretações irrealistas e distorcidas da realidade. Por exemplo, depois de uma rejeição amorosa, podem haver pensamentos como estes:

" A culpa é minha"

"Ninguém me vai amar"

"Nunca mais vou conseguir amar alguém"

Estes e outros pensamentos estão na base dos sentimentos de tristeza e/ou depressão.

É através da terapia que o cliente vai descobrindo os padrões de pensamento irrealistas e que não funcionam e que permitem que a depressão se mantenha. O psicólogo ajuda a encontrar interpretações realistas e adaptativas e apoia na mudança do comportamento, pois a acção é fundamental na superação da depressão.

Ou seja, o medicamento não vai alterar a nossa visão ou perspectiva dos acontecimentos, apenas vai proporcionar um alívio dos sintomas depressivos, mas não resolve a origem da depressão, que está, na grande maioria dos casos e situações, na forma distorcida e negativa de ver as coisas. O medicamento é útil porque torna as pessoas mais aptas e capazes de compreender o que se faz na terapia psicológica. Assim, o medicamento actua nos sintomas na depressão, mas não nas causas. Aqui pode surgir outro problema: a ilusão de melhoria dos sintomas provocada pelos medicamentos pode desmotivar o indivíduo a iniciar a terapia psicológica. Ou seja, o indivíduo ao não realizar a terapia psicológica não se permite a compreender o processo que levou à depressão nem a implementar as formas alternativas, lógicas e racionais, nem a um conjunto de acções que além de irem ao cerne da depressão, permitiria evitar, frequentemente, recaídas. É por esta razão que existem muito mais recaídas no tratamento da depressão que é feito apenas com medicamentos. As estratégias para gerir e enfrentar os acontecimentos de vida não foram "apreendidas" com o medicamento. Existe ainda um crescente número de estudos independentes (Antonuccio et al, 1998) que apontam apenas para uma ligeira vantagem dos anti- depressivos em comparação com um placebo (substância sem qualquer acção no organismo). Todavia, ainda persiste a crença popular que as drogas são a forma mais eficaz de tratamento da depressão, ansiedade , do transtorno obsessivo compulsivo.

A teoria biológica preconiza que são alguns distúrbios químicos no cérebro que estão na origem da depressão, mas também é verdade que a bioquímica do cérebro altera-se de acordo com as maneiras de pensar e com as experiências de vida - ou seja, a terapia cognitivo- comportamental ao alterar as maneiras irrealistas de interpretar certos acontecimentos também altera a química do cérebro.  As nossas experiências de vida e as formas de as interpretar alteram a química do cérebro bem como as suas associações neuronais. Quando aprendemos uma nova habilidade, como andar de bicicleta ou aprender a tocar um instrumento musical, essa informação fica em novas associações de neurónios. Com a prática, esse comportamento fica automatizado e deixa de ser necessário "pensar" nele.

Os medicamentos podem mudar a química do cérebro durante algum tempo (pois só funcionam enquanto estão a actuar no cérebro e depois de sintetizados pelo organismo, o efeito desaparece). Mas só com a terapia cognitivo- comportamantal é que os efeitos poderão ser permanentes pois ao aprender novas estratégias e praticar novas métodos (por exemplo, novas formas de interpretar e lidar com o falar em público ou o medo das alturas), isto cria novas associações neuronais. Com a prática, isto também altera a química do cérebro e de forma permanente.

As pessoas são muito mais ajudadas quando são encorajadas a tomarem um papel activo nas suas vidas, a identificarem os seus erros de pensamento e a desafiarem a sua maneira de pensar, verificando se os seus pensamentos são verdadeiros ou não.

Na terapia cognitiva, o paciente aprende a:

- Compreender e modificar as distorções de pensamento

- Compreender e modificar as emoções que esses pensamentos provocam

- Aprender formas alternativas, mais úteis e funcionais, de pensar e comportar nas situações.

 

O problema é que existem alguns modelos de psicoterapia, bastante lentos e de eficácia por comprovar, que contribuíram para alguma desvalorização do papel da psicologia ou da eficácia da terapia. Alguns tipos de terapia não definem objectivos de intervenção ou não indicam estratégias para enfrentar certos problemas e na qual o terapeuta tem um papel muito passivo. Por exemplo, apesar de muitas pessoas passarem por muitas sessões de psicanálise, ela não tem demonstrado funcionar na depressão (Seligman, 2006).

É por todas estas razões que a terapia cognitivo- comportamental ultrapassa a medicação a médio e longo prazo.

 

 

Bibliografia Consultada:

Antonuccio DO, Burns D, Danton WG (2002), Antidepressants: a triumph of marketing over science? Prevention & Treatment 5:Article 25. Apa.

Kirsch I, Sapirstein G (1998), Listening to Prozac but hearing placebo: a meta analysis of antidepressant medication. Prevention & Treatment 1: Article 0002a

Revista Forbes de 09/ 04 /2007- "Patient Fix Thyself"

Seligman, Martin E. (2006) Learned Optimism: How to Change your mind and your life. Vintage Books

 

Última Actualização

06-Set-2008

 

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Dr. Fernando Lima Magalhães- Licenciado em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP).

Formador na área Comportamental, certificado desde 2003 pelo IEFP.

Carteira Profissional de Psicólogo  n.º 19358.42- IDICT- PORTO

 

 

 

 

 

 
 

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