O
CASTELO
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No cerro situado na margem esquerda do Douro, e próximo da foz deste caudaloso rio, existiu, em épocas remotíssimas, um Castro, aonde mais tarde os romanos estabeleceram a povoação de CALE e, na princípio da era cristã, levantaram um grande e forte Castelo.

Tão famoso monumento – o Castelo – está muita ligado à vida histórica da antiga povoação de CALE e, também, a uma outra fundada no sopé da cerro, marginando com as águas do Douro, à qual foi dada a nome de Gaia.

Não existe, presentemente, este monumento, que esteve erguido durante 15 Séculos, mas tem continuada a ser revivida no nome da povoação em que esteve erecto – Castelo – e no antigo e actual brasão de armas da Município de Gaia.

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O castelo de Gaia foi tomado pelo príncipe D. Afonso, filho do rei D. Dinis, no dia 4 de Janeiro de 1322.

Anos depois, o príncipe D. Pedro, ao saber que seu pai, D. Afonso IV, tinha autorizado a morte de D. Inês de Castro, promoveu a revolta contra o seu progenitor, por várias terras do país, e, também, se apossou do Castelo de Gaia.

O primeiro alcaide, que teve o Castelo de Gaia, foi Rodrigo Anes de Sá, nomeado pelo rei D. Pedro I, em 29 de Julho de 1357. (38)

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Em 1366, o abade do mosteiro de Pedroso forneceu 20 carros de lenha para o Castelo de Gaia.

Também, pelo mesmo mosteiro, foram cedidos bois e carros para serviços de reparação deste monumento. (39)

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No ano de 1385, os portuenses, pretextando desacordos com o alcaide Aires Gomes de Sá, assaltaram o castelo e o danificaram a ponto de não ter mais nenhum alcaide.

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O Dr. João de Barros, que foi escrivão da Câmara do rei D. João III, escreveu:
«...está o castelo de Gaia em um lugar alto e mui aprazível.»
«Este castelo é já derribado, que a cidade já derribou.»
«Ê tão antigo que dizem que o fundou Caio Júlio César.»
«E nele estavam umas pedras com o nome de Caio César.»

Verifica-se, por este depoimento, tanto a proveniência românica do Castelo, como também a destruição do mesmo pelos Portuenses.

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O Foral de Vila Nova de Gaia dado pelo rei D. Manuel I, insere:
«Pello caseyro do castelo de Gaya setecentos reaaes.»

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Em 27 de Setembro de 1580, fugindo das tropas castelhanas, chegou a Gaia o desditoso D. António Prior do Crato.

Durante a sua permanência, em Gaia, foi cumulado de atenções por D. Martim Vaz de Cernache, sexto donatário, em linha varonil, da casa Campo Belo.

Tanto por este facto, como também por este brioso fidalgo não ter acedido aos rogos de Cristóvão de Moura para vender-se ao oiro de D. Filipe II, de Castela, consoante o fizeram tantos outros membros da nobreza lusitana, sofreu os mais graves sobressaltos, entre eles o do ateamento do fogo, feito pelas tropas filipinas, à maior parte das dependências do seu solar.

A nobre casa Campo Belo tem continuado, desde 1385 até ao momento, sempre, na posse dos descendentes do seu fundador, Álvaro Anes de Cernache, que foi o heróico alferes-mor da Ala dos Namorados na gloriosa batalha de Aljubarrota.

Com efeito, em Portugal, a casa Campo Belo, entre as demais pertencentes a famílias nobres, é a mais antiga das que são possuídas pelos descendentes dos seus fundadores.

Presentemente, esta notabilíssima casa Gaiense é representada pelo seu XVI donatário, o Sr. D. Henrique Leite de Pereira de Paiva Távora e Cernache, 4.°conde de Campo Belo (40).

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Ouçamos, mais uma vez, o Dr. João de Barros:
«Tem a cidade o arrabalde de Vila Nova, cuja paróquia é Santa Marinha e junto dela está o Castelo de Gaia (41).

Vemos que, nesta época, a igreja matriz estava perto do castelo, mas não há, presentemente, nenhuns vestígios deste templo.

Há notícia de haverem existido, junto a este monumento, a capela de São Marcos, da qual se diz, por tradição, «que fora a primeira Sé» (42); a capela de Nossa Senhora do Castelo (43); a capela de Nossa Senhora da Piedade e a capela de S. Lourenço, Mártir (44).

Presentemente ao serviço do culto, só existe a igreja do Bom Jesus de Gaia, que, pela sua antiguidade, usufrui muitas preeminências religiosas.

No cais de Gaia há um oratório de invocação ao Senhor da Boa Passagem.

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Comprova-se que ao redor do Castelo de Gaia havia, além da igreja matriz, outros templos e todos de remota antiguidade.

A actual igreja paroquial foi mandada construir pelo Cabido da Sé do Porto, em 13 de Setembro de 1745.

Até à sua abertura ao culto, no ano de 1753, o mesmo Cabido despendeu a importância de 9231$99,4.

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No cais de Gaia também estava erigido o pelourinho do concelho de Cima, mas foi destruído, em 23 de Dezembro de 1909, pelas águas do Douro. (45)

Um outro pelourinho, pertencente ao concelho de Baixo, situado ao poente do cunhal da casa, onde estão instalados os escritórios da firma Sandeman & Cª, foi derrubado, pelas águas do Douro, em 11 de Janeiro de 1821. (46)

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Os generais do exército liberal, logo que entraram no Porto, mandaram ocupar o convento da Serra do Pilar, que fora abandonado pelos seus monges.

E, como em 8 de Setembro de 1832, as tropas miguelistas pretenderam retomar este baluarte, foi o coronel Bernardo de Sã Nogueira (47) dar-lhe combate ao alto da Bandeira, onde ficou ferido por um tiro no braço direito. (48)

Todavia, os generais de D. Miguel, desde o amanhecer do dia 13 de Outubro de 1832 até às 2 horas da tarde do dia seguinte, com o propósito de retomarem este reduto, único, em Gaia, na posse dos liberais, assestaram, contra o convento, o fogo de artilharia de 5 baterias (49), sempre e ininterruptamente, durante 33 horas.

Uma hora depois, três colunas investiram contra as trincheiras, sendo a luta duríssima, porquanto, mais duas vezes, outro número de colunas renovaram o assalto, bastando dizer-se que era já quase noite quando as tropas miguelistas debandaram, deixando no campo e junto às trincheiras liberais cerca de 800 mortos e feridos (50) e os defensores uma perda de 5 oficiais e 64 soldados.

No número dos defensores da Serra do Pilar ,estavam bastantes Gaienses dentre os quais o, então, sacerdote Manuel Bento Rodrigues, que, mais tarde, foi bispo-conde de Coimbra, donde transitou para a Sé de Lisboa, como cardeal-patriarca. (51)

A vitória dos heróicos defensores do reduto liberal de Gaia, comandados pelo bravo José António da Silva Torres (52), mereceu a D. Pedro a honra de os glorificar com o epíteto de Polacos da Serra.

Merece, pois, registar-se a cooperação que os filhos de Gaia deram para o triunfo da batalha de 14 de Outubro de 1832, (53).

Os generais de D. Miguel, em represália às suas derrotas, autorizaram o ateamento do fogo a alguns dos armazéns da actual Companhia Velha, façanha bárbara, que redundou na perda de 15.000 pipas de vinhos velhíssimos e tratados, e de aguardente vínica, no valor de 2.000.000$00 naquela época.

Dois dias depois, a 18 de Agosto de 1833, retiraram de Gaia as tropas de D. Miguel.

O terreno onde esteve erigido o castelo foi vendido pela Estado.

Um dos seus possuidores mandou ali erguer, com face para o caminho, um grande edifício, cujo último donatário o legou à Santa Casa da Misericórdia da Porto, para nele instalar-se um asilo de cegos pobres e abandonados.

Enfim, parecendo altos juízos de Deus, próximo do sítio em que esteve erigido o Castelo, surgiu um outro monumento com a bendita designação: Asilo dos Cegos Pereira de Lima.

E, tão venerando estabelecimento de caridade, está altaneiramente situado na Rua do Castelo.

O Castelo que foi erigido, na antiquíssima CALE, pelos romanos; o Castelo que está celebrizado na aventura do rei D. Ramiro; o Castelo que teve alcaides desde 1357 a 1385; o Castelo que, desde 1834 até ao momento, tem figurado nos brasões do município de Gaia; o Castelo, enfim, que já deu nome à povoação em que existiu, merece que seja perpetuado por um monumento, que o relembre através de todos os tempos.

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Sabemos que a Sr. Dr. Fernando Jorge de Azevedo Moreira, muito digno presidente do município, ufana-se em ter ascendência Gaiense; sabemos que o Sr. Mário Lapa, benquisto presidente da Junta da Freguesia de Santa Marinha, é gaiense nato e sabemos mais, que, ambos têm vontade de nobilitar a grande Vila Nova de Gaia.

Nesta conformidade, esperamos que, dentro de breve prazo de tempo, tenhamos o prazer, na qualidade de velhos Gaienses, de ver inaugurado, no sítio onde existiu durante 15 séculos, um obelisco ou padrão representativo e perpetuador do famoso Castelo de Gaia.
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(38) Corpus Codicum da Câmara do Porto. V. 2 pág. 134.

(39) Pergaminhos nº 196 e 209 do .hrq. da U. de Coimbra.

(40) Muitos ilustres membros da casa Campo Belo figuram nas páginas da história da pátria.

(41) Geografia de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes. Pág. 37.

(42) O seu terreno e materiais foram vendidos, pelo Cabido da Sé do Porto, a João Salgado de Almeida, em 31 de Outubro de 1745.

(43) O terreno desta capela foi vendido a uma casa inglesa.

(44) Estas capelas foram destruídas, por tiros de canhões, durante a luta do cerco do Porto (1832-1833).

(45) Até ao momento, foi esta a maior cheia do rio Douro.

(46) Antes de 1834, a Vila de Gaia compreendia dois concelhos: o de Baixo, ocupava a área desde a actual ponte de D. Luís I até à entrada da Rua das Costeiras, e com a largura desde o rio até à fonte do Cabeçudo, exclusive; o de Cima, abrangia toda a restante parte da actual freguesia de Santa Marinha.

(47) Mais tarde visconde e marquês de Sã da Bandeira.

(48) Foi-lhe amputado, dias depois, e inumado no terreno onde, presentemente está o edifício das Encomendas Postais, da cidade do Porto.

(49) 0 exército de D. Miguel colocou baterias de artilharia nos seguintes pontos: Cabedelo, Monte da Afurada. Verdinho, Castelo de Gaia, Pinhal de D. Leonor, Barrosa e Campo Belo.

(50) O brigadeiro Francisco Magalhães Peixoto Portugal era natural de Vila Real e faleceu, dois dias depois, em casa de João Rodrigues da Cruz - o Susano -, na Bandeira, e foi sepultado na capela da Quinta do Mravedi, de Mafamude.

(51) Foi cardeal-patriarca desde 23 de Abril de 1858 a 26 de Setembro de 1869, data em que faleceu.

(52) Foi agraciado com o título de Visconde da Serra do Pilar

(53) Em homenagem aos heróicos Gaienses que combateram nesta memorável batalha, a Câmara de Gaia, em 14 de Outubro de 1882, deliberou dar o nome de Polacos da Serra à rua fronteira da porta de armas do actual Regimento de Artilharia Pesada nº 2, aquartelado no antigo mosteiro da serra do Pilar.

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