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Tradição | Senshin Ryu Ju Jutsu | Filiação | Didático |
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O Mito do Nascimento do Japão
Abaixo de Takamagahara (a Planície do Alto Céu), onde vivem os deuses, existia uma massa líquida. Izanagi (Aquele Que Convida) e Izanami (Aquela Que Convida) são enviados a transformar esse líquido em terra. Izanagi mergulha a sua espada no oceano, e ao retirar as gotas que caem, coagulam e formam a ilha Onogoro (A Ilha Autocoagulante). Entretanto as divindades desceram para povoar a ilha. Izanami dá origem a um vasto nascimento de divindades, e por fim quando dá á luz o Deus do Fogo, morre queimada. Izanagi perturbado, viaja a Yomi (a terra dos mortos, para trazer Izanami de volta consigo para o mundo dos vivos, mas esta fica envergonhada quando o marido a vê coberta de larvas, e zangada expulsa-o de Yomi. Quando se banha num rio para se lavar livrando-se da contaminação dos mortos, dá origem a várias divindades que saem da sua roupa e várias partes do seu corpo, entre elas nasce a Deusa Solar Amaterasu (Luz do Céu), e o Deus das tempestades e do mar Susano-o (Homem Selvagem). Izanagi envia Amaterasu a Takamagahara para governar os céus, e Susano-o para governar o mar. No entanto Susano-o desobedece a seu pai e é banido, mas antes de se dirigir para o exílio, visita a sua irmã em Takamagahara e força-a a ter filhos dele e dão origem a outro vasto número de divindades, discutem os dois acerca de o que o motivou a tal atitude, perante o qual Susano-o atormenta sua irmã, destruindo os limites dos seus campos de arroz, espalhando excrementos nas paredes do seu paredes do palácio e atirando um pónei esfolado do telhado para o alpendre. Amaterasu foge e esconde-se numa gruta, mergulhando o universo em trevas. As outras divindades atraem-na para fora, penduram um espelho e um colar de jóias numa árvore, depois uma das divindades dança sensualmente exibindo a sua nudez, o que faz rir ruidosamente as outras divindades. O que desperta um certo nível de intriga e curiosidade a Amaterasu que a leva a espreitar para o exterior da gruta e vê as jóias e o espelho, e vai observá-los mais de perto saindo para fora da gruta. As outras divindades agarram-na e fecham a entrada da gruta com uma pedra. Susano-o é então obrigado a cumprir a sua pena de banimento, dirige-se a Izumo, onde passa por várias aventuras e numa delas mata um monstro que devorava crianças, encontra numa das suas oito caudas uma espada, que mais tarde dá de presente à sua irmã, em sinal de arrependimento. Okuninushi, um filho de Susano-o, pacificou a terra selvagem, apesar de vários actos de traição e inveja dos seus irmãos e até de seu pai. Os seus filhos concordam com o pedido de Amaterasu, para que os descendentes dela governem a terra. Jimmu, o seu tetraneto, torna-se o primeiro imperador do Japão.
O Caminho do Samurai
Como o país entrava dum período pacífico e de estabilidade, os guerreiros passaram a não ter muita importância. Passaram a haver camponeses e algumas revoltas para controlar, assim como algum policiamento, mas pouco trabalho para o verdadeiros guerreiros. Passaram a ser administradores, burocratas enterrados em verdadeiras guerras de papel. Estes homens pertenciam a uma classe do topo da ordem social, mas agora os seus verdadeiros postos tinham perdido o seu significado, e viviam um pouco como parasitas da sociedade, mas no entanto os ideais da vida marcial continuavam presentes (Bushido). Então aproveitavam a mínima oportunidade, para justificar o seu valor, por vezes até de forma absurda, como a história dos Quarenta e Sete Ronin (Ronin é um samurai sem mestre para seguir). O acontecimento contado na história dos Quarenta e Sete Ronin, remonta ao ano 1701. O Senhor Asano Naganori, de Ako em Harima, durante uma visita oficial, foi insultado por Kira Yoshinaka, o chefe de protocolo do Shogun, em consequência, Asano puxou a espada dentro do castelo do Shogun, o que constituía uma ofensa capital. Foi então da sua obrigação fazer Sepukku, e o seu património foi confiscado, ficando a família sem herança. Perante esta vergonha, os quarenta e sete Samurais que o serviam ficaram sem senhor, e juraram entre eles vingança. Durante dois anos fingiram levar uma vida completamente regular, até que num momento oportuno em que Kira se encontrava sem guarda, mataram-no e colocaram a sua cabeça sobre o túmulo do seu falecido senhor. Embora este comportamento seja exemplar sobre o ponto de vista de lealdade perante o Código do Bushido, teriam que ser penalizados por tomarem lei, nas suas próprias mãos, então foram condenados, mas foi-lhes permitida a honra de executarem Sepukku, após este cerimonial de suicídio colectivo, foram sepultados no Templo Sengakuji, em Tókio, onde permanecem até aos dias de hoje. No entanto este período de paz obrigou o verdadeiro samurai a encontrar o seu sentido nesta nova sociedade, que no fundo ele tinha lutado para que ela existisse, foi então nesta altura que alguns se aperceberam que o Bushido (Caminho do Guerreiro), pode dar sentido á vida de qualquer um que o siga com rigor, elevando-se como ser humano acima da vida comum. Miamoto Musashi, considerado um dos maiores samurais de todos os tempos, cresceu como guerreiro pelos seus próprios meios, viveu um período de transição entre a guerra e a paz, nos últimos momentos da sua vida escreveu um livro, Go Rin No Sho, que significa O Livro dos Cinco Anéis, onde ele expõe a sua concepção do Caminho do Guerreiro. Mais tarde Yamaga Soko, também um Ronin, que tinha sido um dos mestres de um dos falecidos Quarenta e Sete Ronin, foi talvez o primeiro a encarar o Bushido como uma filosofia global. Salientou os aspectos de lealdade e a autodisciplina, bem como a importância da prática das artes tradicionais, e do desenvolvimento mais perfeito possível do homem no seu todo. Saber qual é o seu lugar na vida, e comportar-se de forma adequada com os outros, é algo bastante salientado por Yamaga, argumentando que não tendo o samurai que se ocupar com assuntos militares, nesta época pacífica, devia dirigir as suas energias para se aperfeiçoar num sentido de virtude moral e espiritual. Quando na conduta do samurai se refere a moralidade, não é no conceito ocidental de certo ou errado, aqui a moralidade resume-se a um bem estar colectivo, em que todas as acções devem ser ponderadas sem juízos de valor. Todo o caminho do guerreiro foi reestruturado, no sentido de proporcionar cada vez mais melhorias aos seus praticantes, em termos de evolução como seres sociais e humanos, solidificando e perpetuando a tradição da prática marcial, por gerações. Os filhos dos samurais e dos nobres eram ensinados em casa ou em escolas especiais. Mais tarde foram abertas escolas, normalmente pertencentes a templos, ou a samurais que procuram outro sentido na vida, permitindo que outras classes sociais tivessem acesso a este tipo de conhecimento, motivando o estudo das artes tradicionais.
A Origem das Artes Marciais Asiáticas
Desde há mais de 5000 anos a.C., que existe um método marcial na Índia denominado Vajramushti, traduzindo directamente do sânscrito, significa Punho Directo (verdadeiro). È uma arte marcial que foi desenvolvida pela casta guerreira Kshatriya. Esta arte marcial sempre teve como objectivo o desenvolvimento de todos os planos do ser humano (físico, mental, emocional e espiritual), não deixando de ter como resultado de toda a prática uma forte componente de defesa pessoal. Siddhartha Gautama (viveu no séc. VI a.C.) filho do rei Suddhodana e da rainha Maya, foi um príncipe que pertenceu a esta casta guerreira e como tal fez parte da sua educação o estudo desta arte, que é profundamente tingida dos ensinamentos clássicos indianos como os Gita, os Purana, e os Veda. Embora príncipe e sem grandes problemas de conforto, questionou-se bastante pelos problemas da humanidade em geral, o que o levou a tentar compreender a origem do sofrimento humano, dando origem a que abandonasse a sua vida de realeza e se refugiasse profundamente em práticas que o levassem ao desenvolvimento humano, ao mais alto nível, sendo mais tarde mencionado como Buddha O Iluminado e dando origem a todo um movimento religioso e filosófico, que é o Budismo. Nos primórdios Buddha ensinava Vajramushti, perseguindo a unificação do corpo e mente de uma forma asceta procurando favorecer a interiorização dos fundamentos budistas. Quase mil anos depois da Grande Extinção (nome dado ao acontecimento da morte de Buddha O Iluminado) Bodhidharma, filho do rei Sughanda, também aprendeu Vajramushti nas mãos de um velho mestre chamado Prajnatara. Mas também devoto aos estudos da doutrina budista, veio a ser o 28º patriarca do budismo, e foi convidado a viajar à China, pelo Imperador Wu Li, que embora grande admirador do budismo, era seguidor de uma nova linha com tendências salvacionistas e ritualistas, opostas às de Bodhidharma, que pregava um budismo ortodoxo, centrado na meditação e focado na busca interior. Por estes motivos, viajou a pé ao reinado de Wei e alojou-se em Shaolin (pequeno templo na floresta), onde foi conhecido também como Ta-Mo, e dedicou-se a transmitir os conhecimentos de um budismo mais perto da sua forma original. No regresso de uma das suas caminhadas para meditar na montanha, foi-se apercebendo que os monges estavam fisicamente débeis, devido à falta de actividade física, e dessa forma não só teriam dificuldade em evoluir nas suas práticas espirituais, como estavam frágeis ao ponto de adoecerem com mais facilidade. Bodhidharma incluiu mais uma vez a prática de Vajramushti como meio de busca interior e em simultâneo levando os monges a elevar a sua capacidade física, mental e espiritual. Nessa altura a China era um país pouco pacífico, e as populações eram oprimidas, os monges como budistas não conseguiram ficar indiferentes a todas as injustiças sociais, cometidas pelos oficiais corruptos do governo Manchu contra a população, então valorizaram também a componente de defesa pessoal resultante da prática do Vajramushti, protegendo as pessoas e os campos de saqueamentos e injustiças, assim como ajudando-as em tarefas árduas do quotidiano mas indispensáveis para a sua sobrevivência, como o cultivo das suas terras. As pessoas em sinal de agradecimento começaram a ajudar a preservar e manter o templo, dando-se assim uma aplicação prática do budismo nas acções do quotidiano e em paralelo foi nascendo o Kung Fu Shaolin. O budismo visa uma procura para a libertação dos sofrimentos terrenos, e define um caminho de gentileza e compaixão por todas as coisas vivas, naturalmente os Monges Budistas de Shaolin interessados na preservação e fortificação da saúde, assim como aumentar o número de seguidores do Budismo, entregaram-se a tarefas onde tiveram também uma importante influência na medicina chinesa. No templo de Shaolin foram traduzidos e implementados conhecimentos médicos indianos muito importantes, assimilaram também muitas técnicas respiratórias do Yôga para apaziguar o espírito, relaxar tensões e focar a energia vital, favorecendo o desenvolvimento humano em todos os seus planos. A medicina e o Kung Fu fundiram-se numa única disciplina, ensinada no interior do templo debaixo da orientação cuidada e rigorosa dos mestres, sendo os seus segredos mais profundos ensinados apenas aos monges mais dotados e aplicados, que se mostrassem dignos desse tipo de conhecimentos, tornando-se por sua vez eles também mestres, ganhando a responsabilidade de orientar os mais novos na prática e aprendizagem do Kung Fu de Shaolin. Conhecimentos mais básicos da arte marcial foram também transmitidos á população, para que se pudessem defender, dando origem mais tarde a um kung fu mais popular onde os conhecimentos de medicina e meditação não são tão profundos, dando-se o nome de Wu Shu Kung Fu (Wu-Marcial, Shu- Arte/Técnica). Estas disciplinas de riqueza inigualável como ferramenta de desenvolvimento do ser humano a todos os níveis, veio mais tarde ser uma preciosa e forte influência no Japão.
O Nascimento do Ju Jutsu
Um médico japonês que vivia em Nagasaki chamado Akiyama Shirobei Yoshitoki, por volta do século XVII, viajou à China para aprofundar os seus conhecimentos no campo da medicina. Enquanto lá esteve, estudou vários métodos de reanimação (hassei-ho, que mais tarde se tornou a ciência kappo ou katsu), no entanto esteve também exposto ás artes marciais chinesas, os seus princípios estratégicos e aplicação. Isto deveu-se obviamente ao facto de que a medicina chinesa era um conhecimento andava em paralelo com as artes marciais. Aprendeu uma arte conhecida por hakuda, que consistia em pontapés e murros mais agarrar e bloquear. Akiyama também aprendeu 28 formas diferentes de recuperar um homem de morte aparente. Depois do seu regresso para o Japão, ele começou a ensinar a arte a um pequeno conjunto de alunos escolhidos, mas porque ele tinha pouca informação técnica para transmitir, os seus alunos cedo se aborreceram e abandonaram-no. Muito aborrecido com isto, Akiyama foi para o santuário de Tenjin durante cem dias para meditar. Durante este período descobriu 303 métodos diferentes de aplicar a arte. Esta multiplicação de técnicas deveu-se ao facto de Akiyama ter visto um pinheiro erecto no meio de uma floresta que após uma violenta tempestade de neve ficou partido em bocados, porque reteve a neve nos seus ramos até que estes não aguentassem e partissem. Contudo, um salgueiro que estava nas redondezas, com os seus ramos que foram cedendo ao peso da neve não se partiu. Ele aprendeu assim o principio da não resistência (Ju suavidade ou gentileza) e aplicou-o na arte marcial, não só no sentido do combate, mas também no sentido moral e espiritual. Abriu outra escola que teve muito sucesso, chamando-a yoshin-ryu ou A escola do Espírito de Salgueiro, consistindo em técnicas tanto de contacto como de corpo a corpo, em simultâneo com a meditação de forma a unificar corpo e mente. A história recorda que muitas técnicas de projecção e bloqueios surgiram no Japão há milhares de anos atrás. Estes métodos foram sistematizados no Ju Jutsu (A Arte da Gentileza) em 1532 por Hisamori Takenouchi. Eles são parte integrante do treino dos samurais e complementam as suas técnicas mais especializadas com as armas. Assim, dentro do Ju-Jutsu coexistiam tanto, técnicas com armas como sem armas. Isto acentuava ainda mais, tal como esperado de guerreiros treinados, a eficácia destes nos campos de batalha. O Ju Jutsu não é um concurso de força muscular de facto, este nem é um factor importante. A arte assenta no equilíbrio, no uso de sistemas de alavancas e na velocidade para efectuar os movimentos necessários e assim, a força disponível é aplicada com todas as vantagens. Ju Jutsu tende a eliminar as diferenças de tamanho, peso, altura e alcance. Fazem parte do programa global de prática do Ju Jutsu técnicas de contacto, o corpo a corpo, a manipulação articular, o conhecimento fisiológico e funcional do organismo humano, trabalho respiratório e meditação.
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in, Senshin Ryu Maki no Mono, Soke Vasco Pinto |