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Tradição | Senshin Ryu Ju Jutsu | Filiação | Didático |
Lendas | Bushido | Credo do Samurai |
CORAGEM | VENCER SEM LUTAR | DEMONSTRAÇÃO CONVINCENTE | TRÊS MOSCAS | |O SEXTO SENTIDO | OS TRÊS FILHOS DE BOKUDEN | O SEGREDO DA EFICÁCIA | |A APOSTA DO VELHO GUERREIRO | A IMAGEM DE ASARI | A LEI DO EQUILÍBRIO | | O CAMPEÃO E O MESTRE | VERDADEIRA MESTRIA | OS 47 RONIN |
CoragemUm certo aluno do mestre zen Bankei, era jovem e apreciador de artes marciais. Um dia decidiu pôr á prova a coragem do mestre atacando-o desprevenido com uma lança, estando este sossegado e sentado. O mestre zen desviou calmamente o golpe com o seu rosário. Depois disse ao seu aluno: " A tua técnica ainda é imatura; a tua mente moveu-se primeiro." Vencer sem tentarA "Maneira de Vencer sem Tentar" era uma escola de artes marciais fundada por um guerreiro chamado Tsukahara Bokuden. Uma história famosa acerca dele ilustra o nome e a metodologia da sua escola. Uma vez, durante uma viagem para o Japão oriental, Bokuden tomou passagem para atravessar uma baía num pequeno barco que transportava outros seis passageiros. Durante a viagem todos os passageiros se sentaram quietos, excepto um homem grande e corpulento que não parava de falar em voz alta , gabando-se dos seus poderes impares em artes marciais. No início, Bokuden tentou dormitar, não ligando ao rufião. Por fim, contudo, cansado da gabarolice do homem, Bokuden virou-se para ele e disse: "Bem, agora já ouvimos de ti toda a espécie de histórias, não ouvimos? O que eu não compreendo nelas são as mentiras acerca de artes marciais. Eu próprio pratico artes marciais desde jovem, exercitando-me de acordo com as formas estabelecidas, mas até agora nunca pensei em tentar vencer alguém. Todo o meu esforço foi orientado para evitar perder com alguém." Ouvindo isto, o impetuoso homem perguntou: "que escola de artes marciais segues tu ?" Bokuden respondeu: "Vencer sem Tentar", ou a "Maneira de não Perder." O homem replicou: "Se é uma questão de vencer sem tentar, porque estás armado com espadas ?" Bokuden returqiu: "As duas espadas de "comunicação mente a mente" quebram o ponto da presunção e cortam os rebentos dos maus pensamentos." Ouvindo isto, o rufião desafiou Bokuden para uma competição dizendo: "Então se tivermos um duelo, tu vences sem tentar ?" Bokuden esclareceu: "Neste caso, embora a espada do meu coração seja de vida, na medida em que o oponente é um homem mau, ela transforma-se numa espada de morte." Por esta altura o arrogante homem já não conseguia conter a sua crescente indignação. Ordenou ao barqueiro que se dirigisse imediatamente para a margem a fim de que ele e Bokuden podessem resolver o assunto. Bokuden fez sub-repticiamente sinal ao barqueiro com os olhos, depois disse ao fanfarrão: "A linha da costa é um porto de muito movimento, demasiado apinhado de gente para um duelo. Eu mostro-te a "Maneira de Vencer sem Tentar não Perdendo", mais além naquela ilhota ao largo do promontório. Embora tenha a certeza de que as pessoas neste barco têm pressa de prosseguir caminho, se insistes tanto, mais vale travarmos o duelo." Assim o barqueiro remou para a ilhota, onde o rufião saltou para a margem, desembainhando a sua longa espada. Gritou para Bokuden: "Anda, anda! Vou-te cortar a cara em duas!" Ainda a bordo do barco, Bokuden respondeu: "Espera um minuto. A "Maneira de Vencer sem Tentar" exige que se serene a mente." Dizendo isto, Bokuden retirou as suas espadas do cinto e entregou-as ao barqueiro, pegando em troca no remo deste. Durante um instante pareceu que Bokudem ia encalhar o barco na margem; depois subitamente ele impulsionou o remo na direcção oposta e empurrou o barco para a água. Vendo isto o rufião gritou: "Por que é que não vens aqui para a margem?" Bokuden disse com uma gargalhada: " Por que havia de ir? Se tens alguma queixa, então nada até aqui, e eu dou-te uma lição de despedida. Esta é a "Maneira de Vencer sem Tentar"!" Demostração convincenteUm ronin foi visitar Matajuro Yagyu, ilustre mestre da arte da espada, com a firme intenção de o desafiar para verificar se a reputação dele não era exagerada. O mestre Yagyu tentou explicar ao ronin que o motivo da visita era descabido e que não via qualquer razão para aceitar o desafio, mas o visitante, tinha todo o ar de ser um perito abalizado, ávido de fama, decidira levar o seu intento até ao fim. Para provocar o mestre, não hesitou em chamar-lhe covarde. Matajuro Yagyu não perdeu a calma, mas fez um sinal ao ronin para o seguir até ao jardim. Depois apontou para o topo de uma arvore. Seria um truque para lhe desviar a atenção? O visitante pôs a mão no punho da sua espada e recuou alguns passos antes de dar uma olhadela na direcção indicada. Na verdade, sobre um ramo, encontravam-se dois pássaros. E então? Sem deixar de olhar para eles, o mestre Yagyu respirou profundamente, até que soltou um tremendo kiai. Fulminados, os dois pássaros caíram no chão. - Que tal? perguntou Matajuro Yagyu ao seu visitante. - In ... crível ... balbuciou o ronin, visivelmente abalado, como se o kiai também o tivesse trespassado. - Mas ainda tenho uma coisa mais espantosa para te mostrar ... disse Yagyu. Um segundo kiai ressoou e, desta vez, os dois pássaros bateram as asas e voaram. E o ronin também. Três moscasNuma estalagem isolada, encontrava-se um samurai a jantar, sozinho numa mesa. Apesar de importunado por três moscas que esvoaçavam à volta dele, mantinha-se impassível. Três ronin entraram por sua vez na estalagem e logo pousaram os olhares invejosos no magnífico par de espadas que usava o homem só. Em superioridade numérica, três contra um, convenceram-se de que seria fácil roubá-lo, e assim se sentaram numa mesa vizinha a combinar maneira de acirrar o samurai. Este continuava impertubável, como se nem se tivesse apercebido da presença dos três ronin. Longe de se desencorajarem, eles tornaram-se cada vez mais trocistas. De repente com três gestos rapidíssimos, usando o pauzinhos que segurava na mão, o samurai a panhou as três moscas que voavam á volta dele. Depois muito calmo pousou os pauzinhos, sem ligar à agitação que acabara de provocar entre os ronin. Com efeito, estes não só perderam o pio como, tomados de pânico, desataram a fugir. Compreenderam a tempo que se tinham metido com um homem de uma tremenda mestria. Mais apavorados ficaram quando mais tarde vieram a saber que aquele que os desencorajara com tanta habilidade não era outro senão o famoso mestre Miyamoto Musashi. O Sexto SentidoTajima no Kami passeava pelo seu jardim numa bela tarde primaveril. Parecia completamente absorvido na contemplação das cerejeiras em flor. Atrás dele, a alguns passos de distância, seguia-o um jovem servente, que levava a sua espada nas mãos. Uma ideia veio subitamente à cabeça do rapaz: "Apesar de toda a destreza com que o meu mestre maneja a espada, seria fácil atacá-lo agora pelas costas, estando ele tão enfeitiçado pelas flores das cerejeiras." Nesse momento preciso, Tajima no Kami voltou-se e esquadrinhou á volta dele, como se quisesse descobrir alguém que tivesse emboscado. Inquieto pôs-se a rebuscar todos os recantos do jardim. Como não encontrou ninguém, acolheu-se no seu quarto, muito pensativo, até que o servente lhe perguntou se sentia bem e se desejava alguma coisa. Tajima respondeu: - Estou profundamente perturbado com um estranho incidente que não consigo explicar. Graças à longa prática de artes marciais, posso reconhecer qualquer pensamento agressivo que seja lançado contra mim. E foi o que me aconteceu, quando me encontrava no jardim. Além de ti, ninguém mais estava ali, nem sequer um cão, e sinto-me descontente por não ter conseguido justificar a minha percepção. Assim que ouviu este queixume, o rapaz aproximou-se do mestre e confiou-lhe a ideia que antes tivera, quando se encontrava atrás dele. Ao mesmo tempo, pediu-lhe humildemente perdão. Tajima no Kami sossegou e, satisfeito, regressou ao jardim. Os três filhos de BokudenBokuden, um grande mestre da espada, recebeu um dia a visita de um confrade. Para apresentar o seus três filhos ao amigo, e mostrar o nível atingido por eles sob os seus ensinamentos, Bokuden preparou um pequeno estratagema: colocou um vaso sobre uma porta corrediça, de forma a que caísse na cabeça de quem entrasse na sala. Sentou-se tranquilamente com o amigo, os dois a olharem para a porta, e chamou o filho mais velho. Este parou assim que chegou junto da porta, entreabriu-a, tirou tirou o vaso e entrou. Voltou a fechar a porta atrás dele e colocou o vaso no mesmo lugar, antes de ir cumprimentar os mestres. - Este é o meu filho mais velho disse Bokuden a sorrir. ele já atingiu um bom nível e está prestes a tornar-se mestre. Chamou o filho do meio. Este fez deslizar a porta e pôs um pé dentro da sala. Esquivando-se à justa do vaso que passou a rasar-lhe na cabeça, ainda conseguiu apanhá-lo no ar. - Este é o meu segundo filho esclareceu Bokuden ainda tem um longo caminho a percorrer. O filho mais novo quando lhe calhou a vez, entrou precipitadamente na sala e levou com o vaso no pescoço, mas, antes do vazo se estatelar no chão, desembainhou o sabre e partiu o vaso em dois. - E este continuou o mestre é o meu filho mais novo. É a vergonha da família, mas é ainda muito novo. O segredo da eficáciaApesar de se Ter tornado um professor de renome na arte da espada, Ito Ittosai achava-se longe de se sentir satisfeito com o nível que conseguia atingir. Por mais que se esforçasse, tinha consciência de que, após algum tempo, seria incapaz de progredir. No seu desespero, decidiu seguir o exemplo de Buda. De facto, os sutras contavam que este se sentara debaixo de uma figueira para meditar, com a intenção inabalável de não se mexer até receber a compreensão derradeira da existência e do universo. Mais determinado a morrer ali do que renunciar ao que se propunha, Buda realizou o seu voto: despertou na suprema verdade. E assim Ito Ittosaai recolheu-se num templo a fim de descobrir o segredo da arte da espada, consagrando sete dias e sete noites á meditação. Na madrugada do oitavo dia, desencorajado e abatido por nada ter acrescentado ao seu saber, resignou-se a voltar a casa, perdida a esperança de alcançar o dito segredo. Depois de ter saído do templo, embrenhou-se numa álea frondosa. Ainda mal começara a andar, quando, de repente, sentiu uma presença ameaçadora atrás dele. Sem reflectir, voltou-se desembainhando a espada. Foi então que se deu conta de que esse gesto espontâneo lhe salvara a vida: um bandido jazia aos seus pés com uma espada na mão. A aposta do velho guerreiroO senhor Naoshige declarou um dia a Shimomura Shoun, um dos seus velhos samurais: - A força e o vigor do jovem Katsushige são admiráveis para a idade dele. Quando luta com os companheiros, consegue vencer até os mais maduros. - Apesar de já ter perdido a minha juventude, estou pronto a apostar que ele não consegue vencer-me replicou o velho Shoun. Com enorme prazer, Naoshige organizou o confronto, que decorreu nessa mesma tarde no pátio do palácio, com a assistência de muitos samurais. Estes esperavam impacientes o que iria acontecer ao velho e espirituoso Shoun. Desde o começo do combate, o jovem e possante Katsushige acometeu o seu frágil adversário, cercando-o firmemente, decidido a vencê-lo com rapidez. Shoun, pelo seu lado, escorregou e caiu várias vezes seguidas, porém, perante o espanto de toda a gente, restabelecia-se sempre no último momento. Desesperado, empregando ao máximo toda a força que tinha , o jovem guerreiro tentou projectá-lo de novo; no entanto desta vez, Shoun aproveitou-se habilmente do seu movimentoe foi ele quem conseguiu desiquilibrar Katsushige e atirá-lo ao chão. E, depois de ajudar o adversário semi-inconsciente a levantar-se, Shoun aproximou-se do senhor Naoshige e disse-lhe: - Confiar na nossa força quando ainda não se domina o entusiasmo, é o mesmo que nos gabarmos publicamente dos nossos defeitos. A imagem de AsariAos 27 anos, Yamaoka Tesshu, que já era perito no manejo da espada, lutou com Asari Matashichiro também ele um afamado espadachim. Este confronto foi breve, pois Asari desarmou rapidamento o seu jovem adversário. Transtornado, Yamaoka sofreu uma angústia profunda, não por causa da derrota, mas porque tomou consciência de como era débil a sua maturidade espiritual. Motivado por este combate, redobrou esforços no sentido de se consagrar inteiramente á arte da espada (ken jutsu) e á meditação (zazen). Por desejar pôr de novo á prova o nível alcançado após dez anos de prática intensiva, procurou Asari para mais uma vez o forçar a combater. No decorrer do combate, deu-se conta de como o adversário o conseguia dominar e impotente perante a mestria de Asari, interrompeu a contenda e reconheceu a derrota. Este reencontro impressionou-o de tal maneira que, desse dia em diante, se deixou dominar pela imagem de Asari, uma imagem obcecante que lhe trazia permanentemente á memória a sua mediocridade. Longe de se resignar, intensificou a pratica do ken jutsu e do zazen. Sete anos passaram, quando, depois de uma intensa experiência espiritual, constatou que a imagem de Asari deixara de o atormentar. Resolveu então medir forças com ele mais uma vez. Asari começou por confrontá-lo com um dos seus alunos, mas este considerou-se derrotado logo no início do combate. Foi então que Yamaoka enfrentou Asari pela terceira vez. Os dois homens trocaram um olhar prolongado, a estudarem-se um ao outro. Subitamente Asari baixou o sabre e declarou: - Conseguiste, encontraste finalmente o caminho. A lei do equilíbrioDurante uma estada no Japão. no princípio do século, um europeu decidiu aprender o ju jutsu, pois tinha-o em conta de uma arrojada arte de combate. Começou assim a seguir os ensinamentos de um mestre de renome. Mas ficou deveras surpreendido quando, no final da terceira lição, verificou que ainda não tinha aprendido uma única técnica de combate. Tudo se limitara ao exercício de alguns movimentos muito lentos, para se descontrair. No fim da lição, decidiu abordar o mestre: - Mestre, desde que aqui cheguei, nada fiz que se assemelhe a exercícios de combate. - Sente-se, por favor - declarou o mestre. 0 europeu instalou-se negligentemente no tatami e o mestre sentou-se à frente dele. - Quando começa a ensinar-me ju jutsu? 0 mestre sortiu e perguntou: - Acha que está bem sentado? Não sei... Há alguma maneira de se estar bem sentado? Como resposta, o mestre desenhou com a mão a maneira como ele próprio se encontrava sentado, as costas bem direitas, a cabeça no prolongamento da coluna vertebral. - Mas, meu caro mestre - retorquiu o europeu , eu não vim aqui para aprender a sentar-me. - Eu sei disse pacientemente o mestre, quer aprender a lutar Mas como é possível lutar sem procurar o equilíbrio? - Sinceramente, não vejo qual possa ser a relação entre sentar-me e combater. - Se não consegue manter o equilíbrio quando está sentado, isto é, na mais elementar das posições, como será possível fazê-1o em todas as circunstâncias da vida e, sobretudo, durante um combate? Dito isto, acercou-se do aluno estrangeiro e, tocando-o ao de leve, fê-lo cair. Continuando sentado, o mestre pediu-lhe que, por sua vez, tentasse derrubá-lo. O europeu começou por empurrá-lo timidamente com uma mão, logo a seguir com as duas, até que acabou por se apoiar firmemente no mestre, mesmo assim sem conseguir o que pretendia.. De repente, o professor deslocou-se ligeiramente para o lado e o aluno saiu projectado por cima dele, estatelando-se no tatami. Esboçando um sorriso, o mestre acrescentou: - Espero tê-lo feito entender a importância do equilíbrio. 0 campeão e o mestreUmedzu era campeão de esgrima na sua província e assim que soube que o famoso mestre Toda Seigen se encontrava de visita à cidade onde ensinava, ficou impaciente por medir forças com ele. Quando perguntaram a Seigen se aceitava o desafio que lhe lançava o campeão da província, ele respondeu: - Nem pensar! Não consigo ver qualquer razão para lutar com esse homem, pois não tenho de provar nada a ninguém. Digam-lhe que um combate de dois homens armados de sabres decorre entre a vida e a morte, e que eu não posso aceitar um risco desses de ânimo leve. Assumindo esta resposta como urna desculpa da parte de Seigen, que aparentemente temia ser vencido perdendo assim a sua reputação, Umedzu divulgou publicamente a recusa do mestre e não hesitou em chamar-lhe cobarde. 0 governador da província, mal ouviu falar do assunto, mostrou-se muito interessado, pois ele próprio era um apaixonado pela arte da esgrima. Fez chegar uma mensagem a Seigen, pedindo-lhe amavelmente que aceitasse o desafio, mas este recusou-se a responder. 0 pedido foi renovado em três ocasiões e o tom em que era feito tomava-se cada vez mais insistente. Seigen não se podia recusar por muito mais tempo, pois corria o risco de infringir as regras e as obrigações dos samurais, que deviam obediência aos senhores feudais. Resolveu então combater Umedzu. o árbitro, o local e a data do confronto foram prontamente escolhidos. Decidido a fazer pesar a balança para o seu lado, Umedzu recolheu-se sem perder tempo num santuário shinto, onde passou três noites e três dias a praticar um ritual religioso de purificação na intenção de se preparar para o combate e de se conciliar com os deuses. Houve quem contasse a Seigen todos os pormenores da preparação do adversário, recomendando lhe que fizesse o mesmo, mas o mestre sortiu tranquilamente e declarou: - Procura cultivar permanentemente no meu coração a sinceridade e a harmonia interior. Não são coisas que os deuses me possam oferecer nos momentos críticos. Como havia sido combinado, os dois guerreiros encontraram-se e o senhor da província deslocou-se pessoalmente com o seu séquito para assistir àquela peleja tão desejada. Na companhia de uma multidão de alunos e admiradores. Umedzu levara um boken, uma espada de madeira de mais de um metro de comprimento Seigen, por seu lado, segurava um bastão que não media mais de quarenta centimetros. Umedzu, quando viu aquilo, dirigiu-se ao árbitro para exigir que o seu opositor usas se também um boken conforme os regulamentos. Não queria que atribuíssem a sua vitória ao ;facto de Seigen utilizar uma arma tão ridícula! transmitiram a reclamação a Seigen, mas este recusou-se a abandonar o seu bocado de pau. 0 árbitro decidiu então que cada um lutasse com a arma respectiva Umedzu lançou se furioso na batalha, com ataques vigorosos e repetidos. Saltava e rugia como uma fera assanhada, a sua arma abatia-se com uma precisão implacável e rompia o ar com uma velocidade prodigiosa. Quase indiferente, o mestre Seigen evitava cada golpe com a subtileza e a elegância de um gato. O seu olhar apático não deixava de fixar o adversário, o seu corpo perfeitamente erecto parecia brincar, dançar com o sabre que roçava nele de uma forma inquietante. Umedzu fora de si, manejava o boken, fazendo apelo de todas as suas forças, mas, irritado, não parava de golpear o vazio. Todavia. este bailado não durou muito tempo. De repente, sem se saber muito bem porquê, o campeão imobilizou-se e uma dor intensa transpareceu-lhe na cara. O pequeno bastão do mestre atingira-o pela certa, mas ninguém sabia dizer em que parte do seu corpo Seigen aproveitou aquele momento para agarrar o boken do adversário. Atirou-o para longe e preparava-se para deixar o local do combate, abandonando Umedzu à sua humilhante derrota, quando este, num acesso de raiva, desembainhou o punhal que tinha na cintura e atirou-se ao mestre. Com um movimento quase imperceptível, o bastão de Seigen assobiou no ar. Acertou no alvo mais uma vez, mas desta feita Umedzu estatelou-se no chão com todo o peso do seu corpo. Verdadeira mestriaTrês samurais de casta superior convidaram Dokyo Yetan para tomar uma taça de chá. Fizeram-lhe várias perguntas sobre o zen, mas, como o mestre lhes respondia de uma maneira muito enigmática, um dos samurais, já um pouco irritado, ousou dizer-lhe: - Não há dúvida de que sois um grande mestre zen e, no que a isso respeita, não estamos à altura de lutarmos convosco. Mas, se viesse à baila a questão da concentração necessária a um combate, creio que seríeis incapaz de nos defrontar. - Eu não seria assim tão categórico. Aliás, a vida já me mostrou mais de uma vez que é bom não tirar conclusões antes de passar pelas experiências - replicou o mestre. - Devo concluir que tenho a vossa permissão para vos confrontar num combate? - perguntou o samurai, depois de trocar um olhar carregado de ironia com os companheiros. - Pois, já que esse é o único meio de verificar se aquilo que afirmais é verdadeiro. Certo de que conseguiria derrotá-lo logo ao primeiro embate e receando ferir o velho monge, o samurai começou por atacá-lo com suavidade, muito devagar. Mas, aos poucos, acelerou o ritmo, porque as suas investidas se perdiam sistematicamente no vazio. Dokyo Yetan deu-se conta de que aquelas infrutíferas tentativas começavam a cansar o espadachim, por isso. pediu que se interrompesse o combate e propôs: - E que tal se me atacassem os três ao mesmo tempo? Para mim. seria um excelente exercício e, para vós. uma óptima oportunidade para me vencerem. Espicaçados no seu orgulho de guerreiros, os samurais valeram-se de tudo o que sabiam para atingir o mestre, mas ele permanecia intocável. Umas vezes desviava os ataques com o leque: noutras, o seu corpo conseguia desviar-se sempre no último instante. Os três adversários acabaram por reconhecer a derrota e resolveram conhecer de perto a essência do zen. E não foi um longo sermão que os demoveu, mas sim esta espantosa demonstração. De regresso ao mosteiro, o jovem noviço que o acompanhava o mestre não conseguiu resistir e perguntou-lhe qual era o segredo para evitar os ataques do sabre com tanta agilidade. Então Dokyo Yetan explicou-lhe: - Quando a visão virtuosa é exercida sem qualquer tipo de bloqueios, ela tudo penetra, incluindo a arte do sabre. Os homens comuns vivem obcecados com as palavras. Assim que ouvem um nome, fazem um juízo de valor e deste modo permanecem agarrados a uma sombra. Mas aquele que é capaz da verdadeira visão vê cada objecto inserido na sua própria luz. Mal põe os olhos no sabre, compreende como deve enfrentá-lo. Defronta-se com a multiplicidade das coisas sem se deixar confundir. Os 47 roninA lenda começa em 1701, um tempo de paz durante o Shogunato de Tokugawa. O Shogun Tsunayoshi vivia e reinava em Edo, enquanto o Imperador, que tinha muito pouco poder politico, vivia em Kyoto. Para mostrar respeito para com o Imperador, Tsunayoshi enviava presentes para Kyoto por altura das celebrações do Ano Novo, e em retorno o Imperador mandava os seus presentes de Kyoto para Edo. Numa destas trocas de presentes Tsunayoshi decidiu enviar dois dos seus novos daimyos para receber os mensageiros imperiais. Naganori Asano-Takuminokami, Senhor do Castelo de Ako na provincia de Harima e Munehare Date, Senhor de Sendai. Pelo facto destes daimyos serem muito enexperientes em receber tão altos visitantes, o Shogun decidui designar um alto oficial chamado Yoshinaka Kira-Kozukenosuke para os apoiar. Kira, que era um homem arrogante e de mau fundo, ficou bastante irritado com Lord Asano por este não o presentear com caros artigos em sinal de apreciação e respeito por sua ajuda. Desta forma,, Kira em vez de ajudar Lord Asano prejudicava-o sempre que podia e rebaixava-o publicamente sempre que tinha oportunidade. Depois de um par de meses nesta situação de abuso a tolerância de Asano terminou. A 14 de Março incapaz de suportar mais os insultos de Kira, Lord Asano desenbainhou o seu katana (em si uma ofensa capital quando efectuada dentro do castelo de Edo) e feriu Kira ao de leve. Por esta ofensa, o Shogun Tsunayoshi ordenou a Lord Asano que cometesse imediatamente seppuku. Kira, por outro lado, não recebeu qualquer punição. pelo contrario foi-lhe permitido continuar com os seus deveres oficiais. O facto do Shogun não ter punido Kira e ter ordenado a execução de seppuku a Lord Asano irritou por demais os seguidores e amigos de Asano. De acordo com as leis reinantes quando um samurai cometia seppuku, o seu castelo era confiscado pelo Shogun, a sua familia era deserdada, e os seus 321 samurai eram ordenados a separar-se e a dispersar, tornando-se assim Ronins. Os samurai de Asano não estavam muito conscientes de como actuar perante esta situação. Alguns pensavam que se deviam recusar a entregar o castelo ao Shogun, outros achavam que deviam planear uma ação de vingança e matar Kira, outros achavam que deviam respeitar a lei e render-se pacificamente. Oishi Kuranosuke, chefe conselheiro de Lord Asano, depois de ouvir todas as opiniões transmitidas pelos samurai decidiu traçar um plano. Ele iria pedir ao Shogun o reestablecimento da "Casa de Asano" encabeçada pelo irmão mais novo de Lord Asano, Daigaku. Se esta petição falhasse os samurai de Lord Asano recusar-se-iam entregar o castelo e defende-lo-iam até à morte. Nos dias que se seguiram, enquanto os agentes do Shogun se encaminhavam para Ako todos os samurai que se oponham à petição foram saindo do castelo, deixando apenas 60 samurai fieis a Lord Asano. Mesmo antes que qualquer dos emissários do Shogun chegassem ao castelo, Daigaku Asano enviou uma mensagem a Oishi pedindo-lhe que obedecesse às ordens do Shogun e entregasse o castelo. Oishi e os restantes 59 samurai aceitaram o pedido de Daiguku, mas antes de entregarem o castelo decidiram traçar um palno de modo a restaurar a honra de seu mestre Lord Asano matando Kira, cujo caracter pouco tinha a haver com os samurai e que tanta desonra trouxe à familia de Lord Asano. Apenas a sua morte reporia de novo a honra a Lord Asano e a sua familia. Deste modo separaram-se por forma a conceber e levar o seu plano em frente. Naturalmente que Kira suspeitava que os samurai de Asano tentassem vingar-se dele. Para afastar qualquer tipo de suspeita Oishi retirou-se para Yamashima, suburbio de Kyoto, onde foi ganhando a reputação de jogador e bebedo, o que fez diminuir a guarda por parte do Shogun, bem como os espiões de Kira. O Shogun ainda com receio de que a questão da morte de Lord Asano ainda não tivesse resolvida ordenou a prisão de Daigaku Asano e sentenciou o seu confinamento e de sua familia a uma pequena provincia, acabando assim, com alguma esperança que pudesse haver quanto ao reestablecimento da "Casa de Asano". Durante cerca de dois anos eles esperaram pacientemente, disfarçados de comerciantes, de vendedores de rua e até de bebedos, procurando obter informações sobre Kira e estando atentos aos seus movimentos por forma a encontrar uma oportunidade para tomar de assalto a sua mansão. Até que finalmente Kira relaxou e dimimuiu o desconfiança e a guarda a Oishi e seus companheiros. Numa reunião secreta Oishi e os outros 59 Ronin decidiram que o tempo deles era chegado e que eles deveriam devolver a honra a seu mestre. Oishi decidiu levar consigo apenas 46 dos 59 Ronin. Ele decidiu enviar os outros 13 para junto das suas familias. Um por um Oishi e os seu homens infiltraram-se em Edo, e numa noite nevosa de Inverno a 14 de Dezembro de 1702 os 47 Ronin atacaram a mansão de Kira enquanto ele dava uma festa do chá. Os 47 Ronin divididos em dois grupos atacaram a mansão pela entrada principal e pelas traseiras. Nessa batalha os 47 Ronin lutaram contra 61 guardas armados . Ao fim de hora e meia de batalha, os Ronin de Asano tinham morto ou capturado todos os guardas de Kira sem nenhuma perda. Depois de uma busca pela mansão, Kira foi encontrado escondido na casa de fora. O Ronin trouxe Kira para o atrio principal e frente aos outros 46 deu-lhe a mesma oportunidade que foi dada a Lord Asano: morrer honradamente cometendo seppuku. Kira não queria cometer seppuku pelo que o Ronin o decapitou. Depois, para simbolizar a conclusão da sua missão, os 47 Ronin voltaram onde tinha sido sepultado Lord Asano no templo Sengaku-Ji e lá colocaram a cabeça de Kira, declarando assim a honra de Lord Asano redimida. Preparados para morrer , Oishi enviou um mensageiro ao magistrado a Edo, informando o que tinha sido feito e dizendo que eles iriam ficar à espera no templo Sengaku-Ji, a aguardar ordens do Shogun. O Shogun Tsunayoshi , em vez de ficar profundamente irado com o acontecimento, ficou muito impressionado com a enorme lealdade demonstrada pelos 47 Ronin. Este facto tornou a decisão de Tsunayoshi ainda mais dificil. Deveria ele apenas separar os 47 Ronin como reconhecimento pelo a sua enorme demonstração de lealdade para com o Bushido ou deveria ele puni-los de acordo com a lei? Depois de 47 dias de reflexão, Tsunayoshi ordenou que Oishi e 45 dos Ronin se matassem, não como meros criminosos mas como honrrados guerreiros. O mais novo dos Ronin que foi enviado a Ako com a noticia da morte de Kira foi poupado a esta sentença. A 4 de Fevereiro de 1703 os 46 Ronin foram divididos em quatro grupos e entregues a 4 diferentes daimyo, que foram ordenados de supervisionar e testemunhar as suas morte. Oishi e os outros 45 Ronin cometeram seppuku simultaneamente, dignificando-se no seu valente sacrificio. Depois das suas mortes, os 46 Ronin foram enterrados lado a lado com seu mestre no templo Sengaku-Ji. |