O CONVENTO DA SERRA DO PILAR
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No ano de 1140, o bispo do Porto, D. Pedro Rabaldio, fundou um mosteiro de freiras, que seguiam a regra de inclusas ou emparedadas, no sítio em que está erigido o edifício do actual mosteiro da serra do Pilar (108), de invocação a São Nicolau.
Este mosteiro vigorou até princípios do século XIV, em virtude de não haverem religiosas que desejassem continuar a cumprir a cruciante penitência usada nesta casa religiosa.(109)
Em virtude do convento das Donas Emparedadas de São Nicolau ficar desabitado, o prior do convento de Grijó, D. Bento Abrantes, deliberou estabelecer uma filial do seu mosteiro no sítio em que existiu o das monjas de S. Nicolau.
E, assim, depois de ter obtido a licença pontifícia, conseguiu que o bispo D. Baltasar Limpo, prelado do Porto, viesse benzer e lançar a primeira pedra para a edificação do novo mosteiro, cerimónia que foi realizada no dia 28 de Dezembro do ano de 1537.
Em 19 de Junho de 1540, o fidalgo João Dinis Pinto vendeu, para cerca do novo mosteiro, pela quantia de 10$00, uma parte da sua quinta de Quebrantões, da qual; era Senhoria directa a Câmara do Porto.
Dois anos depois, em 1542, o novo convento recebeu os primeiros monges, que vieram do convento de Grijó.
No ano de 1566, convieram os priores dos - conventos de Grijó e da filial a dividirem os seus rendimentos, com o objectivo do novo mosteiro ficar independente.
Nesta conformidade o novo mosteiro substituiu o orago do Salvador pelo de Santo Agostinho, que foi mantido até à sua extinção em 1834.
O prior D. Acúrcio de Santo Agostinho resolveu mandar construir a actual igreja ao lado da primitiva, que ainda hoje se pode ver, no ano de 1598.
Foi o prior D. Jerónimo da Conceição que, no domingo de Páscoa do ano de 1678, mandou colocar, no altar-mor da igreja do mosteiro, a imagem de Nossa Senhora do Pilar, à veneração dos fiéis (110).
Na noite de sexta-feira de Lázaro, era costume sair, deste convento, a imagem do Senhor dos Paços até à matriz de Santa Marinha, recolhendo à igreja do mosteiro, em solene procissão, no domingo seguinte.
Esta procissão deixou de realizar-se desde o ano de 1826.
A igreja, durante a luta do cerco do Porto - 8 de Setembro de 1832 a 18 de Agosto de 1833 -ficou muito danificada, a ponto de não se poder praticar o culto.
Todavia, um grupo de devotos Gaienses resolveu representar à rainha D. Maria II, para constituírem uma confraria, que celebrasse o culto à Virgem do Pilar.
Com efeito, em 25 de Setembro de 1844, o famoso ministro António Bernardo da Costa Cabral submeteu à assinatura da soberana o decreto que reprovava a constituição da Real Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Pilar, erecta na igreja da serra do Pilar, de gloriosa memória, com o louvável fim de celebrar as festividades anuais da Santa Virgem, com a invocação da Glória.
Esta confraria teve como seus primeiros dirigentes:
Juiz, Manuel Alves Souto
Escrivão, António Vieira de Andrade
Tesoureiro, António Dias Ribeiro Gasparinho
Mesários, José Alves Souto, Francisco Alves Souto, Diogo José de Macedo, João Lourenço da Fonseca, João Coelho de Almeida, Domingos Teixeira Martins Ferro, Custódio José Gonçalves Parada. (111)
A esta confraria se deve a salvação da actual igreja do convento da serra do Pilar, porquanto foi a expensas dos seus filiados que foram adquiridos os artigos e objectos indispensáveis à prática do culto, como também pagaram as reparações mais necessárias, que evitassem a ruína de tão importante monumento, único na península pela sua forma redonda e magnificência arquitectónica(112).
Para o culto exclusivo à imagem de Nossa Senhora do Pilar constituiu-se, em 15 de Agosto de 1895, uma «Devoção de Nossa Senhora do Pilar» da qual foi abnegado e presentíssimo membro, António de Pinho Vargas e Silva.
Em 1925, foi constituída a Comissão dos Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar, que, através de grandes sacrifícios, conseguiu não só realizar muitas beneficiações na igreja, como também alcançou restaurar o lindo claustro do convento, construído em 1692, em forma redonda, como a igreja, e único no país com tal disposição.
Também foram restauradas outras dependências do mosteiro, que jaziam em ruínas, de forma a poderem servir para a guarda de muitas raridades que nelas foram recolhidas.
Dos elementos da Comissão dos Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar, é justo que destaquemos Ramiro Bastos Mourão (113) que, no cargo de seu presidente, muito se dedicou ao empreendimento de obras de vulto, que se fizeram em benefício de tão vetusto monumento.
Como seu cooperador, também muito se distinguiu António de Pinho Vargas e Silva Júnior, que, na verdade, foi um zelosíssimo membro no desempenho das missões que lhe foram confiadas.
O Governo, notando a beleza arquitectónica da igreja do mosteiro da serra do Pilar, incluiu-a no número dos bens nacionais; e, por isso, tem despendido importantes quantias na reparação de tão magnífico monumento religioso.
Devemos lembrar que, no antigo brasão de armas do Município de Gaia, a igreja da serra do Pilar nele figura como preito aos heróis Gaienses que, sob o comando do bravo general José António da Silva Torres Ponce de Leon, se cobriram de glória na defesa deste reduto, onde ganharam a vitória de 14 de Outubro de 1832 sobre as tropas do Rei D. Miguel I, vitória que além de lhes granjear o honroso título de Polacos da Serra, também firmou o denodo e coragem possuídos pelos filhos da antiquíssima Mea Vila de Gaia.
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(108) Primitivamente Monte da Meijoeira, e também. Serra de Quebrantões. Depois Monte de São Nicolau; e, desde 1678, ano em que foi exposta, na igreja do mosteiro, a imagem de Nossa Senhora do Pilar a designação actual.
(109) As monjas encerravam-se numa cela de quatro paredes, tendo uma delas um pequeno orifício, apenas, por onde lhe eram dados OS alimentos, durante todo o tempo que vivessem.
(110) Logo se constituiu uma confraria que teve como seu primeiro juiz o bispo do Porto, e que deliberou fazer a festa em honra de Nossa Senhora do Pilar, no dia 15 de Agosto de cada ano.
(111) A petição é subscrita por cerca de 150 pessoas, de Gaia, e Porto, além das indicadas.
(112) As igrejas de Santo André, de Canidelo, de Santa Maria e da Madalena eram providas por monges deste converto e a de Mafamude, em alternativa com o Papa, oito meses no ano.
(113) Era justíssimo que o. Município, em reconhecimento a Ramiro Bastos Mourão que, também por vários anos. foi vice-presidente da Câmara de Gaia, desse o nome deste presentíssimo amigo do progresso de Gaia, a uma das novas ruas existentes no bairro da serra do Pilar.
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